segunda-feira

POEMA DO COPO

Preencheu-me de súbito e borbulhou sobre mim,
teu líquido quente embaçando meu vidro.
Não sei se eras nosso fervor ou o cigarro aceso ao lado,
que enublava com fumaça a superfície das coisas.
Mas do toque devoto ao desejo de cada gole,
sei que me apertava com as pontas enrubrescidas dos dedos.
E na ânsia de levar-me até os lábios secos,
eu suava e me fazia escorregar para atrasar teu regalo.
Não tardou para nossa sede esvaziar-me e abarrotar-lhe.
E então ali, do vazio úmido de teu resto,
Pude eu ficar cheio de outro líquido.


terça-feira

Sou Brisa quando te sonho...

Às vezes, quando adormeço e tu me preenches os sonhos,
acho que eu própria me embalo, vendo-me abraçada a ti.
Invariavelmente, enches-me de beijos a tua boca,
e ao percorrer-me a face, provoca-me pequenas cócegas.
O teu murmurar doce deixa-me num êxtase infinito.
Sinto, então, que perco matéria e me desfaço lentamente,
como que deslizando às tuas voltas e envolvendo-te em anéis sutis,
que fazem esvoaçar os teus cabelos...
Levando comigo as últimas palavras que pronunciaste,
 e os derradeiros beijos que tu me deste...




















Hoje, quero ser escritora sobre o papel do teu corpo.
Vou te gravar na pele, em palavras, aquilo que de dentro tu me trazes.
Para que, por absorção, regresse ao teu ser e jamais se perca,
e este ciclo se mantenha eterno.
A caneta é esta boca que repete com exaustão o que me fazes sentir.
E a tinta, essa indelével, é o amor que sinto por ti.
À medida que escrevo vou lhe cobrindo com pétalas vermelhas,
que esvoaçam ao encostar de nossas bocas,
e ao juntar dos nossos alentos em uníssono...



segunda-feira

AUSÊNCIA

Como é estupendo ouvir através do som da noite a melodia misteriosa do amor...
E na insípida aturdez das dissonâncias noturnas, eis que você surge...
bailando dentre meus pensamentos!
Logo, a lembrança de teu insano cheiro desperta minha imaginação,
E então, vejo como num delírio onírico nossos corpos efusivos 
se arrolando pela mística imensidão.
Olho para o infinito de teus olhos, prostados no vazio do espaço,
e busco com meu esquizofrênico tato,
a fantasia com a qual foi feito o teu corpo.
E ainda em surto, transmuto-o em alucinação, criando-te com magias e rituais, 
dando-lhe o contorno da arte, consagrando-te com o poder da criação;
Formoso, eis que renasce de minha mente, o ser majestoso todo feito de desejo...
Suas mãos emaranham-se em meus negros cabelos,
E junto ao meu corpo, permanece ainda, este frio que emana de sua AUSÊNCIA.


sábado

Escola do samba-vida

E lá se foi o Carnaval....
Sambando todo colorido pela avenida da vida.
Abriu as alas da esperança e dos bons encontros.
Foi destaque das paixões intensas e das alegrias efervescentes,
Compôs blocos de devires...animal..vegetal...devir criança!
Batucou em nossos corações e nos deu ritmo.
Corpos alegóricos!
E restaram os confetes em cores, serpentinas em fluxos, olhares e toques...
Micros carnavais cotidianos!

quarta-feira

CENTELHA DE GELO

E já passava da meia noite, quando sua mão emagrecida roçou o papel vazio e lhe imprimiu as primeiras coisas.
O que ouvia por detrás de sua embriaguês não era sequer a chuva densa que caia, senão as vozes daquilo que considerava ser ancestral.
Não demorou muito e seu peito já estava cerceado por uma penugem embranquecida.
Suas pestanas encolheram sob o sopro ardido do oco em que se encontrava.
E, então, de súbito, roubou-lhe o silêncio de si própria e o emprestou aos móveis antiquados e às penumbras que a permeiavam.
Trêmula, talvez pelo frio que entre as gretas da porta ousava perpassar, acendeu seu cigarro cambaleante.
Cada fluxo de fumaça escorregava sobre o plano invisível da realidade que criara para inventar seus próprios devaneios.
Arriscou um suspiro e denovo caiu na maciez solene de suas quimeras.
Enxergava com extrema lucidez o pálido brilho que ecoava de sua face refletida na tela do televisor, há muito desligado; e percebendo-se como infinitamente espectral, deixou de lado seu papel roçado, agora parcialmente recheado, para mastigar com os olhos sua inquietude de viver.